A ingênua completa

Uma das coisas que gosto muito, é viajar de automóvel porque, me dá uma enorme sensação de liberdade e, na consequência, me faz um bem danado. 
Não importa se sou o motorista ou não. Curto as duas formas por igual. 
Agora, por exemplo, quem está no volante é o Francisco (Chico para os íntimos). Chico é amigo e parceiro de longa data e é alguém com quem posso contar e confiar.  
O fato de eu não estar ao volante, me dá condições de admirar a paisagem à medida que o carro anda. O bom da coisa é que ela muda o tempo todo como se fosse um filme.
Ops! Vi agora uma casinha branca em um morro, bem ao longe.
Quem será que vive lá?
Quais são as alegrias e os dramas destas pessoas?
O que será que elas fazem para ganhar a vida?
Quais são os sonhos e as decepções que elas têm?
Será que elas, não gostariam de trocar de vida comigo? Quem sabe?
De repente, estes devaneios, foram interrompidos quando o Chico disse:
— Precisamos encontrar um posto porque o combustível já está no final. 
Olhei o relógio e vi que eram cinco horas da tarde.
Pelos meus cálculos, o Chico está dirigindo há mais de dez horas então, assim como eu, ele deve estar cansado e com fome. 
A ideia de parar me apeteceu, mas o que preciso mesmo, é ir para um hotel. Quero tomar um bom banho, comer alguma coisa de qualidade, dormir bem e, na madrugada seguinte, pegar a estrada de novo. 
— Chico – perguntei – quantos quilômetros dá para rodar sem abastecer?
— Acredito que uns quarenta, mais ou menos.
Eu não conheço bem a região onde estamos mas, pelo que vi em um mapa, quando planejava a viagem, lembrei que, logo adiante, existe uma pequena cidade. Lá seria mais fácil encontrarmos um hotel.
— Chico. Reduza um pouco a velocidade, porque aqui perto tem uma cidadezinha e não quero passar batido.
Ele fez o que pedi então, fiquei prestando atenção na estrada para não corrermos o risco de perder a entrada. 
Mais ou menos, uns trinta minutos de viagem, vimos uma placa que dizia “Recreio Feliz, a cinco quilômetros. Antes que eu o instruísse, Chico perguntou:
— É esta cidade?
— Sim, toque em frente?
Pouco tempo depois, encontramos a entrada de Recreio Feliz e seguimos por ela.
Não rodamos nem dez minutos antes de chegar no centro da cidade, isso logo depois de termos passado por algumas casas que, provavelmente, fazem parte da periferia de Recreio Feliz.
Na rua que estávamos, existiam lojas que agora, estavam fechadas, face o horário. Logo a frente, dava para ver que a rua acabava numa praça. Para orientar o Chico, apontei para ela, ele entendeu e seguimos em frente.
Contornamos a praça pela direita. Foi apenas um opção do Chico já que, a rua que a circunda, é larga e tem duas mãos. Isso nos dá uma ideia do volume do tráfego que transita por ali que deve ser pouco.
A praça é bem arborizada e ocupa a quadra toda. De onde estávamos agora, dava para ver que, no centro dela, existia uma espécie de chafariz.
Isto era comum nas cidades brasileiras, mas com o tempo, deixou de ser moda porque as prefeituras foram muito criticadas pelo fato de usarem recurso público para fazer coisas “imprestaveis’, como se dizia tempos atrás e, acredito, ainda criticam.
Pelo jeito, Recreio Feliz, preservou o seu chafariz porque ele estava todo arrumadinho, limpo e com pintura que dava para ver que era recente.
Eu gostaria de vê-lo funcionar porque isto, me trariam recordações do meu tempo de criança porque, lembro bem, na cidade onde nasci e me criei, existia um chafariz.
O dito cujo, deveria ter uns 8 metros de diâmetro e cinco metros de altura. Foi construido todo em cimento armado e era estruturado em andares onde, o térreo, era o maior e, os de cima iam diminuindo de diâmetro, até que, chegasse no último andar que devia ter, mais ou menos, coisa de um metro e meio de diâmetro.
Aos domingos, mas não todos, a prefeitura botava o chafariz para funcionar. As pessoas que passavam por ali, paravam e ficavam admirando a Fonte Luminosa espargir água para cima e para os lados numa determinada sequência que mudava frequentemente. Parecia que, ela acompanhava o som da banda municipal que, na retreta, interpretava musicas diversas, principalmente marchinhas e hinos diversos.
Continuamos contornando a praça até que, no lado oposto por onde entramos, vimos uma enorme placa anunciando que ali existia um hotel e ele se chamava “Hotel Recreio”. Para minha surpresa, vi que era um bom hotel porque era um prédio de quatro andares, bem cuidados e bem iluminado.
Quando chegamos na frente do Hotel, eu disse:
— Chico, deixe eu descer aqui para dar uma olhada depois, estacione mais à frente e, se ver que demoro, venha pra cá e traga as nossas bolsas.
— Tudo bem. 
Quando entrei, vi que o hotel era o que eu pensava.
No hall de entrada, ao lado direito, existiam dois conjuntos de sofá de boa qualidade, revestidos de couro natural e organizados em semi-círculo que procurava fazer com que todas a pessoas que ali sentassem, pudessem assistir a programação da enorme TV, instalada na parede, de frente aos sofás.
Entre os sofás e a TV, havia uma mesa de ferro fundido que combinava com os sofás e, mais ao lado, um porta jornal de madeira trabalhada cheia de revistas e periódicos aparentemente, de várias origens.
Para concluir a decoração, existiam 4 vasos de cerâmica com plantas artificiais de bom gosto, não muito altas, quase encostados na parede da frente.
Finalmente, em todos os espaços possíveis das paredes, haviam obras de arte que, bem distribuídas, chamavam a atenção de quem chegava nesse espaço.


Avancei e, chegando numa espécie de balcão encontrei um homem atrás dela, todo sorrisos.
— Boa noite, meu senhor – disse ele.
— Eu preciso de dois apartamentos. É possível?
— Sim, temos vagas. Quer ver o apartamento?
— Não há necessidade. Só pela recepção do hotel e pela roupa que você usa, já sei que o apartamento será bom. 
Ele agradeceu e deu um sorriso simpático e, me deu uma ficha de registro para eu preencher.
Fiz o que ele queria, e
Quando ele chegou, eu já estava preenchendo o formulário do meu registro no hotel.
Chico se aproximou de onde eu estava e o Eduardo, entregou para ele outro formulário de registro. 
Enquanto o Chico preenchia o registro dele, perguntei para o recepcionista:
— Onde ficam os apartamentos? 
— Eu os coloquei no térreo, ao fim do corredor. Os números são seis e sete. Fácil de achar. 
Quando possível, fomos para lá, mas antes, pedi que o recepcionista nos chamasse às oito e trinta. Ele fez um sinal que entendeu. 
— Chico – eu disse – vamos tomar um banho e descansar um pouco até às oito horas, mais ou menos e daí vamos jantar. Seria bom um local que servisse uma boa  carne. Estou com fome de leão. 
— OK – disse ele.
Fiquei com o apartamento seis. Entrei, fui até o banheiro e gostei do que vi. Água aquecida com gás, duas enormes toalhas e sabonetes cheirosos me esperavam.  
Tomei um banho de príncipe e, logo em seguida, fui para cama e apaguei, literalmente. 
A sensação que tive quando o telefone tocou me acordando, era que tinha passado apenas um minuto então, me perguntei: Quem está ligando? Atendi, era o Eduardo da portaria.
— Olá – disse ele – são oito e trinta. 
— Já?
— Sim – disse ele, automaticamente.
Ri um pouco da atitude dele, mas é assim mesmo, pergunta boba é respondida bobamente.
— OK – disse eu – Chame o meu parceiro.
— Já chamei.
Me vesti, saí do apartamento e fui até a recepção. O Chico ainda estava no apartamento. Ele é sempre demorado para se vestir e, principalmente, para pentear e ajeitar o idefectível rabo de cavalo que usa, há séculos.
Perguntei ao Eduardo, se existia uma churrascaria nas proximidades. 
— Sim, disse ele – tem uma aí na esquina seguinte.
— A comida é boa?
— É a melhor aqui de Recreio.
— Vou confiar.
— Pode confiar – disse ele rindo.
Esperei o Chico chegar e fomos jantar. Segundo o Eduardo, iriamos comer bem e, como era isso que eu precisava, a expectativa ficou aparente.
O garçom que nos atendeu nos ofereceu uma mesa próxima de onde estávamos. Olhei ao redor e optei por uma mais distante de onde, eu podia ver todo o restante e, principalmente, quem entrava ou saia.
Já sentados, o garçom nos explicou como o restaurante funcionava e expôs a variedade oferecida pelo restaurante no tocante à comida.
Dentre as várias alternativas optamos para que viesse rodízio de carne com as guarnições postas na mesa. Quanto às guarnições, mandamos vir apenas arroz a grega e uma salada mista.
Dai, o garçom perguntou:
— Salada colorida?
— O que é isso? – perguntou o Chico.
— É uma salada que não tem apenas verde, mas sim, variedades de pimentão, cenoura, nabo branco e avermelhado, rabanete…
— É muita coisa – disse eu – vamos simplificar. Monte uma salada com as variedades de pimentão, agrião, brócolis e beterraba. Assim está bom. O que acha Chico?
— Para mim está perfeito apenas – disse ele olhando para o garçom – adicione kiwis e maçã, mas não muito.
— Bem pensado – disse eu – gosto também.
O garçom fez as anotações necessárias num pequeno bloco e perguntou:
— Para beber, o que que querem? Informo aos amigos que – apontando para a minha direita – temos uma mesa de aperitivos que agrada muito os nossos clientes. Está ao dispor dos senhores.
Ambos dispensamos o aperitivo. Em seguida, eu disse para ele que, trouxesse uma Malzbier para mim e, para o Chico, uma garrafa de cerveja.
— Qual cerveja? – perguntou o garçom.
Antes que eu respondesse, Chico se antecipou e disse:
— Qualquer uma, mas se não tiver essa, traga outra qualquer.
O garçom ficou muito confuso, mas quanto entendeu a brincadeira, disse:
— É, a primeira não temos então, se não se importar, trarei a segunda.
Todos rimos. Em seguida, ele fez as anotações finais, afastou-se e sumiu numa porta que existia por tras de um balcão
Passado alguns minutos, chegou outro garçom que trouxe as bebidas, copos, pratos, guardanapos e talheres para, rapidamente, distribui-los e ajeitá-los na mesa. Quando terminou, numa voz rouca que não combinava com ele, perguntou:
— Posso servir as bebida?
— Sim – respondi – a Malzebier é minha.
Ele abriu as garrafas e abasteceu os nossos copos até o limite do bom senso. Ficou parado ao lado da mesa até que provássemos a bebida. Provamos, e demos sinal de positivo.
— Quando quiserem, chamem o garçom para vir as guarnições e para dar inicio ao rodízio.
— Os senhores têm preferência para alguma carne em especial?
— Não – respondi – vai na ordem que vier. Depois veremos.
— Fala para o garçom que pode dar inicio a tudo que temos direito.
— Está bem, avisarei. Bom apetite aos senhores.

Veio muita carne e, como sou vidrado nisso, comi apenas um pouco de salada para que a carne tivesse espaço no meu estômago. 
Chico também comeu bem. Ele é alto, encorpado e tem o corpo do atleta que foi.
Depois de um tempo, esperando o estômago assentar, resolvemos que era hora de ir embora e nos dispusemos a voltar para o hotel. Na volta, Chico perguntou:
— Será que tem um puteiro nesta cidade?
— Não sei. Porque?
— Pensei que, se tivesse, a gente podia dar uma chegada lá.
— Pode ser – disse eu.
Chegando ao hotel, perguntei para o Eduardo sobre o puteiro. 
— Tem sim – disse ele. Pretendem  ir até lá?
— Depende. Bate polícia?
— Não, porque a casa é da irmã do padre e ele está no esquema. A polícia sabe disso e está tudo bem.
Pensei comigo mesmo: O padre? Será possível? Isso aumentou a minha curiosidade. Pedi que ele continuasse.  
— Quando a casa abriu, só tinham três meninas. Elas vieram de fora e foram formadas pelo padre e pela Margot, irmã dele. 
— Formadas? – perguntei.
— Sim, existe um aliciamento em outro estado, explico depois. As meninas chegam na rodoviária e depois são levadas para a casa do padre, na paróquia.
— Filho da puta – eu disse – quanto tempo elas ficam lá?
— Depende de quanto dura o treinamento que o padre dá. Veja bem, chegam aqui meninas virgens, com doze, treze anos, por aí. As  mais novas que, possivelmente são ingênuas, ficam mais tempo. Já as mais velhas ficam duas ou três semanas e daí vão trabalhar no puteiro.  
— Caramba – disse o Chico – Eles têm uma fábrica de putas.
— É bem isso – disse o Eduardo, rindo – sem trocadilhos, é um puta esquema.
Fiquei escandalizado e perguntei:
— Será que isso tudo é verdade?
— É, tenho certeza. Veja…
Assim, com bastante detalhes, ele continuou a narrativa e respondeu todas perguntas que fizemos. 
Entendi que o padre tem outra irmã. Ela é freira e vive em Cerqueira Cezar, uma pequena cidade de um estado distante. 
É esta lazarenta quem alicia alicia as meninas e as envia para cá. 
Como o Eduardo disse, elas são quase crianças e vêm de áreas rurais. A maioria é de família católica e aí, dá para entender como é que a freira consegue aliciá-las. 
Possivelmente, ela deve dizer aos pais que, as filhas deles vão para uma cidade melhor para poder estudar, aprender uma profissão e mandar dinheiro para casa.
Isto tudo não deixa de ser verdade mas é  monstruoso.
Por essa razão, segundo o Eduardo, não é raro ver a Margot na rodoviária esperando as meninas chegarem.
Geralmente, elas vêm em duplas e algumas, são irmãs. Sempre, o destino é a casa do padre e daí, como ele disse, elas ficam lá um bom tempo, possivelmente, sendo tratadas pelo padre pedófilo. 
Perguntei ao Eduardo José:
— Como você sabe de tudo isso?
— Eu trabalho aqui no hotel à noite, mas durante a tarde, sou taxista e tenho a confiança da Margot. 
— Então, você faz parte do esquema? 
— Na realidade não, eu só pego a Margot no puteiro, a levo na rodoviária, ela põe as meninas no carro. Dai me compete, levá-las à casa do padre quando, a Margot desce com elas e depois de algum tempo, volta sozinha e a deixo no puteiro. 
— Você não anda comendo ela? – perguntou o Chico. 
— Não, de jeito nenhum. Ela tem mais de cinquenta anos, parece uma pessoa sofrida e, é muito feia. A idade só, não teria problema, mas o resto não dá. 
— Ela falava do esquema para você? – perguntei.
— Pouco, mas não precisava. Era evidente o que acontecia. 
— OK, continue – disse o Chico.
Ele continuou na narrativa:  
— Na realidade, o começo de tudo é o padre. Ele, além de ser viciado em sexo, é um pedófilo filho da puta. Não é todo o…
— Você o conhece? – perguntou o Chico, interrompendo a narrativa do Eduardo, que respondeu:
— Sim, conheço. Ele é bem mais novo do que a Margot. Acredito que deva ter quarenta anos, por ai. É um cara bonitão e tem muita mulher daqui de recreio que suspira por ele.
Pelas explicações do Eduardo, me parece que possivelmente, o padre sofre de satiríase.
É uma doença masculina que faz com que o homem pense em sexo o tempo todo. Dependendo do grau que o doente esteja, tem necessidade de se relacionar sexualmente varias as vezes ao dia, com mulheres diferentes ou não. Não há limite para pessoas que são assim.
O caso do padre pode ser mais sério porque, além de uma possível satiríase, ele sofre de pedofilia, que é quando necessita se relacionar com jovens e até mesmo com crianças, praticamente de qualquer idade. Existem casos no mundo, de ocorrência de estupros em crianças de seis meses de vida e até menos.
— Como se chama o padre? – perguntei ao Eduardo.
— O primeiro nome é Vitor. Sobrenome não sei. Porque quer saber?
— Curiosidade apenas, continue.
— Como eu estava dizendo, não é todos os dias que chegam meninas novas. Margot liga e eu vou lá no puteiro para trazer uma ou duas pra casa do padre. O que acontece lá dentro eu não sei, mas dá para imaginar. 
— Elas ficam muito tempo lá – perguntou o Chico?
— Varia muito, mas é coisa de duas semanas. Às vezes mais, às vezes menos ou até chegar carne nova para o padre se divertir.
Perguntei a ele:
— Quando as meninas vão de volta para o puteiro, é você que as leva?
— Nem sempre sou eu. Eu não tenho certeza, mas acho que, como o padre Vitor tem carro, ele as leva.
— Você não acha estranho isso? – Perguntei.
— Como assim?
— Simples – disse o Chico –
— Quantas meninas vêm para cá num determinado tempo?
— Varia, mas não são muitas. Eu diria, umas duas ou três, a cada dois meses.
— E todas vão para o puteiro?
— A princípio, sim, mas…
— Me diga uma coisa – disse o Chico – há quanto tempo que existe o puteiro aqui na cidade?
— Acredito que é mais ou menos quatro anos.
— Então – continuou, o Chico – nesta taxa de chegada de meninas, a casa deve ter um monte delas lá. Certo?
Eduardo pensou um pouco e disse:
— Você tocou interessante porque não são muitas. As poucas vezes que fui reparei que deve ter, mais ou menos, quinze meninas.
— Então deve ter muitas que chegam, ficam um tempo e vão embora. Certo? – perguntei.
— Sim, isso acontece. Certa feita, tive uma relação com uma delas que durou um tempo. Era complicado porque eu só podia me comunicar com ela, indo lá, porque elas não têm acesso a telefone. Fiquei um tempão se poder ir lá e ela enviou um recado por um amigo meu, que ela conhecia.
— Por que você está nos contando tudo isso?
— Veja bem, não é segredo e, muitas pessoas da comunidade sabem, mas não fazem nada. Políticos e homens importantes da região, frequentam a casa. 
— Hipócritas – eu disse e ele concordou. 
Pensei comigo, é um esquema bem bolado, mas não é por isso que deixa de ser criminoso. 
Em seguida, pedi a ele que nos ensinasse o caminho da casa e ele fez isso, com detalhes. Eu queria conhecer as coisas de perto.
— Eduardo – eu disse – Tem como você mandar alguém buscar as nossas bolsas no apartamento?
— Sem problemas, eu mesmo posso pegar. Qual é a ideia?
— Pelo que entendi da tua explicação do endereço do puteiro, que ele é perto da estrada de saída da cidade, que foi por onde entramos. Certo?
— Sim.
— Então, vamos pegar as bagagens porque, caso a gente resolva ficar dormindo lá, amanhã de manhã pegamos a estrada, sem precisar voltar até aqui. Caso não fiquemos, voltaremos para cá.
— Sim, entendi, mas…
— Não se preocupe, vamos deixar pago agora.
— É o que eu ia perguntar – disse ele.
— Só mais uma coisa, você fica a noite toda aqui na recepção?
— Sim. O meu turno termina às seis horas da manhã.
— Ótimo. A possibilidade de ficarmos lá é muito pequena então, se viermos, como você estará aqui, faremos os acertos necessários.
Pegamos o carro, passamos num posto e o abastecemos. Em seguida, pegamos a estrada que foi por onde entramos ao chegar, e seguimos em frente até encontrar uma estradinha à direita. Pegamos a estradinha, rodamos quatro quilômetros, atravessamos um riozinho por uma ponte de madeira e, mais trezentos metros adiante, chegamos o puteiro.
Era um casa aparentemente grande,
O Eduardo explicou que era uma casa de esquina, na cor azul claro e tinha muitas árvores no terreno. 
Ao chegarmos na esquina indicada, vimos a casa, mas por causa da rua sem iluminação, quase passamos por ela. Ela tinha um muro de tijolos e deu para ver que, na frente, tinha um portão de madeira pintado na cor vermelha e ele estava entreaberto. 
Estacionei um pouco afastado do portão, onde era mais escuro. Apaguei o motor e saímos do carro. 
Passamos pelo portão e nos dirigimos à uma área que fazia parte da casa. Ela estava parcamente iluminada porque uma pequena lâmpada estava acesa. Antes de chegarmos até a porta, um homem saiu debaixo de umas árvores que existiam ali perto e disse:
— Boa noite, pessoal. 
Fui pego de surpresa porque, pela falta de iluminação, eu não o tinha visto, mas quando chegou mais perto, já com a luz da área, pude vê-lo melhor.
Ele aparentava ter sessenta anos. Usava um chapéu de couro, camisa xadrez de algodão bem surrada e calça jeans a qual, era presa na cintura, por um cinto de couro, que portava uma fivela enorme, aparentemente de prata. 
Respondemos o cumprimento do homem e aguardamos a iniciativa dele, que disse:
— O senhor deve ser o Bruno e o seu amigo aí, com certeza, é o Geraldo.
— Sim, como sabe – disse o Chico.
— O Eduardo me ligou e disse que os senhores estariam para chegar. Geralmente, nestes casos, ele vem junto, mas hoje parece que ele não pode.  
— Entendi – eu disse – Qual é seu nome? 
— Valdomiro, seu criado.
— Tudo bem, Valdomiro, dá para entrar? Estamos de passagem e queremos conhecer o ambiente.
— Sim, com certeza. Por favor, me acompanhe.
Em seguida ele cruzou a área e bateu na porta dando dois toques rápidos e um curto. 
Rapidamente a porta foi aberta e vimos uma menina de cabelos negros e lisos, aparentando ser bem jovem, com um sorriso lindo. Ela disse:
— Olá, sou a Laurinha. Entrem por favor. 
— Obrigado, querida – disse o Chico. 
O Chico não pode ver uma mulher bonita que ele já fica todo interessado. 
A Laurinha se afastou para nos dar espaço e fez um sinal ao Valdomiro que estava tudo bem enquanto fechava a porta.
Reparei que devia haver trinta a quarenta pessoas e, a maioria eram mulheres. Alguns casais dançavam e, em um barzinho no canto direito da sala, havia várias pessoas que conversavam, bebiam, se agarravam e riam alto. Pareciam felizes, mas pelo menos no que concerne às mulheres, possivelmente não havia felicidade.
Escolhemos um par de sofás arrumados em “L” com uma mesinha de centro e sentamos.
Pedimos duas cervejas e Laurinha trouxe.  
À primeira vista, a casa era bem montada, mas pouco diferente de outras porque a decoração era boa. Móveis, tapetes e cortinas eram de bom gosto e tudo parecia asseado.  
Ao sentar, vi um enorme espelho na parede. Por ele, eu podia ver o que acontecia nas minhas costas. 
De repente, Laurinha me deu um pedaço de papel dobrado e deu outro para o Carlos.
No meu, dizia:  
— Me chamo Lucrécia. Estou usando um vestido azul e uma rosa vermelha no cabelo. Vamos dançar?
Pelo espelho a encontrei. Era uma mulher lindíssima. 
Levantei e fiz um sinal positivo e ela veio em minha direção.
Chico, já tinha lido o bilhete dele e a remetente, Sofia, já estava ali. 
Sentei e esperei a chegada da Lucrécia. 
Pelo espelho, vi que ela tinha parado para falar com uma mulher gorda e feia. Devia ser a cafetina Margot, pensei. 
Pouco depois, ela chegou. Pegou na minha mão e fomos para o centro da sala.  
Peguei-a pela cintura e ela encostou seu corpo fenomenal no meu.
Isso me excitou e me fez muito bem. 
Ficamos um certo tempo acariciando os nossos corpos, um contra o outro. Não era dança e sim um “quase coito”, afinal, não sei dançar.
Depois de um tempo, voltamos ao sofá. 
Pela conversa que tivemos, conclui que ela, além de bonita era educada, se expressava bem e sabia muito de quase tudo. Perguntou se eu lhe pagava um drink. Concordei e ela chamou a Laurinha que logo foi atendida.  
Os quatro, conversamos e rimos muito.  
As duas meninas se comunicavam muito bem. Eram alegres, tinham muita classe e se comportavam como fêmeas na ante sala de uma grande historia de amor. Isso é treino, pensei. 
De nossa parte, tanto eu como o Chico, as respeitamos e tratamos como damas. 
A cada minuto que passava, minha admiração pela Lucrécia, crescia até o ponto de me assustar quando me passou pela cabeça, a possibilidade de me apaixonar por ela. 
O tempo passou e, de repente, elas disseram que precisavam ir ao banheiro e saíram. 
Acompanhei-as pelo espelho e vi que passaram pela frente da cadeira que a Margot estava e, em seguida, entraram por uma porta existente nos fundos da sala.
Pelo espelho, continuei vendo o que acontecia naquela parte da sala. Margot, sentada numa cadeira almofadada só lhe faltava uma coroa para ser a visão bizarra de uma rainha.
As suas “valetes” sentadas em sofás nas proximidades ou seu redor e, sempre ao alcance do seu olhar vigilante, tentavam espelhar felicidade junto aos clientes com o objetivo de passar a ideia de que tudo, com elas, estava no lugar certo.
Olhando por esse prisma, ha que se reconhecer que elas até que conseguiam passar essa imagem pelo menos, para as pessoas que foram lá para usá-las para os seus propósitos.
Esse, certamente, não era meu caso então, eu as via como mercadorias que poderiam ser compradas pelo preço aceitável pelos clientes e, principalmente, pela cafetina que, na verdade, definia o que era certo e o que era errado, sob todos os pontos de vista.
A minha, vamos dizer assim, inspeção, foi interrompida, quando vi que as duas tinham saído de onde estavam e que, pelo combinado, voltariam à nossa mesa.
Quando elas passaram pela frente da cadeira da Margot, esta fez um sinal que parassem ali e elas atenderam a ordem.
Senti que algo não estava bem porque, tanto a Margot como a Sophia, me pareciam atemorizadas e isso se confirmou quando a Margot começou esbravejar contra ela sem parar, aparentemente, as ameaçando, mas de repente, houve deu uma pausa e a Lucrécia aproveitou para falar. Foi mal, porque a Margot deve não ter gostado e, com isso, deu-lhe um tapa na cara. Lucrécia sentiu o impacto e chegou a cambalear, mas não caiu, apenas baixou a cabeça e ficou quieta. A cafetina, chegou bem perto dela, e pelo queixo, obrigou a menina levantar a cabeça e ouvir o que ela tinha a falar. Em seguida disse algo para a Sophia, que esteve ali o tempo, mas nada disse. A Sophia, pegou a Lucrecia pela mão e a conduziu em direção de onde vieram .
Honestamente, tive ganas de ir até lá e encher a gorducha de porrada, mas me contive.
Dali a um tempo maior, elas vieram em nossa direção.
Perguntei pra Lucrécia:
— O que aconteceu e por que o tapa?
— Nada. Não aconteceu nada. Qual tapa?  
— Vi daqui que você levou um tapa.
— Houve uma desavença e a Margot chamou a nossa atenção.
— Precisa bater?
— A Margot é assim. Quando fazemos alguma coisa errada ela interfere e, para o nosso bem, nos põe na linha.
— Não acredito que você permita isso.
— Deixa para lá, Bruno. Foi um tapinha de nada e – mostrando o lado do rosto onde recebeu o tapa continuou – está vendo alguma marca?
— Não estou, mas agora sei porque a Sophia te levou de volta ao banheiro e porque vocês demoraram. Você foi ajustar a maquiagem para que escondesse as marcas da porrada que levou.
Ela me olhou com aqueles grandes olhos azuis e segurou as minhas mãos.
— Deixa quieto Bruno.
Chico, que deve ter visto o desenrolar da coisa, disse algo engraçado sobre a velha gorda e todos rimos. 
A conversa continuou, mas dali a um tempo, percebi que as meninas estavam diferentes porque mudaram de comportamento. Eu diria que, saíram as meninas educadas e inteligentes e baixou em ambas, entidades de pomba gira que fizeram surgir as putinhas deslavadas.  Com certeza a cafetina falou para elas “apressarem o passo” porque é necessário faturar. Quando a Lucrécia falou, deve ter tido algo que a contrariou então, dê-lhe tapa.
A mudança delas era evidente porque, agora elas falavam em ir para cama, sexo anal e outras expressões. A Sophia até sugeriu um “menâge à quatro”.
Não sou puritano, mas confesso que, o comportamento delas, principalmente da Lucrécia, me decepcionou, então resolvi ir embora. 
Calma! Eu disse para comigo mesmo. Você esperava o que? Casar com a menina? Confesso que a Lucrécia mexeu comigo e, sem que percebesse, deixei que a coisa corresse solta, mas o pior, é que, visivelmente, eu mexi com ela também. Como a vida da gente é estranha.
Quando demos a noticia que iríamos embora, senti uma certa tensão nas duas. 
A Lucrécia disse:
— Você não gostou de mim, não é verdade.
— Não é isso. 
— É sim – ela disse um pouco mais tensa. 
Eu quase disse “eu te amo”, mas não tive coragem então, disse:
— Você é uma linda mulher. Pena que está neste lugar embora, eu saiba mais ou menos, como a coisa aconteceu…
— Se você gostou de mim, porque vai embora.
— Desculpe querida, mas não tenho porque ficar. Se eu ficar hoje aqui, vou querer ficar mais e mais e isso não vai dar certo.
— Tem certeza?
— Sim. Eu e o Chico vamos pegar o carro que está lá fora e vamos para o hotel. A ideia é dormir bem para descansar e amanhã cedo, pegar estrada.
— Honestamente, não acredito – disse ela – acho que vocês irão o para o Mulão Ruge. Lá que é bom, não é?  
— Mulão Ruge? O que é isso.
— É um puteiro que tem aqui perto, em Serra Alta. 
— Não conheço, até porque, não sou da região.
— A gente ouve aqui muitos comentários. Alguns dizem que lá é diferente daqui. As meninas ganham bem, têm liberdade de sair para passear, ir ao cinema enfim, vida boa.
— Entendi, mas se você é escrava daqui e lá é bom como você diz, por que não vai trabalhar lá?
— É complicado porque a Sophia é minha irmã. Viemos juntas para cá então, não posso, simplesmente fugir e deixá-la aqui. Ela é bobinha.
— Que idade ela tem, Lu?
— Lu? Porque me chamou assim?
— Eu não gostei do nome “Lucrecia”. Acho Lu mais íntimo.
— Quem me deu este nome foi a Margô. O meu nome real é Genoveva.
Quase tive um ataque de riso, mas contive.
— Esta bem, Gê. Entendi.
Ela riu e disse:
— Eu sabia que você ia rir e não é o primeiro que faz isso então…
A interrompi e repeti:
— Que idade tem a Sophia?
— Quase, dezesseis anos. Faltam seis meses para isso.
— Meu Deus.
— Para você ter uma ideia, fugir daqui é perigoso.
— Por que?
— Alguns meses atrás, uma menina que trabalhava aqui e tinha um namorado, tentou fugir. O Valdomiro descobriu a fuga e ficou de tocaia. Quando o rapaz pulou o muro para esperar a saída dela debaixo das árvores, o Valdomiro o pegou, e quase o matou de tanta pancada. O rapaz, assustado, nunca mais apareceu aqui.
— Outra razão para eu ir ficando e ficando é que tenho medo de fugir daqui e depois, não conseguir trabalho lá no Mulão porque eles são exigentes. Dizem, que a casa só contrata mulher completa. 
— Não entendi.
Ela me olhou como quem me examinava e, aparentando desconfiança, perguntou:
— Você sabe o que é uma mulher completa? 
A pergunta me bateu forte. Fiquei com muita pena dela e da sua ingenuidade. Isso me deixou com mais ódio ainda do esquema que o Eduardo me contou.
Achei melhor explicar tudo à ela então, tomei uma “dose dupla de calma e paciência” e expliquei em detalhes o que seria uma “mulher completa”.
Quando terminei, ela me olhou com aqueles lindos olhos azuis e disse:
— Isso tudo é verdade?
— Sim. É a pura verdade. Acredite.
Ela disse:
— Se uma mulher completa, é aquilo que você disse, eu sou então, uma Ingênua Completa
Ela ficou um tempo pensativa e, em seguida, disse que iria ao banheiro e já voltaria. Me pediu que a esperasse.
Pegou a irmã pela mão e saíram. Pela determinação dela ao sair, senti que ela iria fazer alguma coisa. Planejar uma fuga, talvez? Quem sabe? A hipotese da fuga, me deixou preocupado porque elas correrão risco enorme. Podem até serem mortas.
Logo depois que elas se afastaram, refleti melhor e tomei uma decisão.
Primeiro compartilhei a ideia com o Chico. Ele entendeu o que eu disse e concordou.  Chico é assim, ele diz sim ou não e, depois que decide, faz o que precisa ser feito. 
Quando elas estavam voltando, pararam para conversar com a Margô. Falaram amistosamente, com a cafetina e, percebi que o que foi dito, foi do agrado da criminosa porque ela concordou. Em seguida, elas voltaram para a nossa mesa e retomamos a conversa.
Percebi que as duas pareciam aliviadas, então, perguntei o que tinha acontecido, que deixou elas mais animadas.
— Amanhã é domingo. Amanhã tem missa na Catedral de Recreio. Amanhã eu e a Sophia, iremos à missa.
Me caiu a ficha. Elas devem ter um plano de fuga. A Gê estava sentada ao meu lado então, me aproximei mais e lhe dei um abraço. Ela perguntou no meu ouvido:
— É o abraço de despedida?
Falei no ouvido dela:
— Me ouça com muita atenção.
Antes que ela dissesse alguma coisa, sussurrei no ouvido dela a minha decisão e esperei a reação dela. Ela afastou o seu rosto do meu, me olhou bem nos olhos e disse:
— Sim. Estaremos prontas.  
Em seguida, fizemos um sinal para a Laurinha nos trazer a conta. Ela veio logo daí, pagamos. 
Levantamos e elas nos levaram até a porta. No trajeto, quase voltei atrás. Me segurei para não beijá-la e levá-la para cama. Vi que ela percebeu isso porque deu um sorriso malandro.  
A Sophia abriu a porta para sairmos e foi o que fizemos.
O Valdomiro apareceu para informar que o carro tinha sido bem cuidado.
Agradecemos e fomos na direção onde estava o carro. Eu estava com a chave então, desliguei o alarme e abri o porta malas. Peguei uma pistola nove milímetros e o Chico pegou a Mauser de sempre.
Voltamos à casa e, no caminho, Geraldo apareceu e quis saber o que tinha acontecido. Eu disse a ele que tinha esquecido minha carteira e precisava entrar para pegá-la. O Geraldo ficou me olhando enquanto eu dava os toques da senha de abertura da porta. Demorou quase nada e a Laurinha apareceu na minha frente com o sorriso de sempre. Passei por ela e entrei na sala. 
Vi que a Margot continuava sentada na cadeira e vi também que a Gê e a Sophia estavam em pé, perto da porta que, supostamente, levava ao banheiro.
Cheguei bem perto da Margô, que ficou me olhando surpresa. Tirei a pistola da cintura, cheguei mais perto dela e atirei duas vezes na cabeça dela, que morreu instantâneamente.
Depois dos estampidos baixou um silencio avassalador. Sai andando devagar, mas com passo firme, eu queria sair antes que a correria acontecesse.
Sai pela porta por onde entrei e fui para o carro. Não vi o Valdomiro e, quando cheguei no carro, Chico já estava ao volante com o motor acionado, com o porta malas e as duas portas da direita, abertas. Perguntei à ele:
— E o Geraldo?
— Ele está dormindo e sonhando com os anjos debaixo das árvores. Não vai incomodar. 
— Você despachou o cara?
— Não, apenas botei ele para dormir. Ele quis entrar junto com você, mas impedi.
— OK. Vamos aguardar.
Fiquei ao lado do carro e esperei até que, de repente, portando sacolas, Gê e Sophia apareceram afobadas.
Peguei as sacolas, mandei que elas entrassem na parte traseira e fechassem a porta. Em seguida, coloquei as sacolas, junto com as nossas, no porta malas. Entrei na parte da frente do carro e fechei a porta.
— Vamos embora Chico.
Imediatamente, ele fez uma curva em “U” e fomos embora. 
Pensei: Como será a nossa visita a um certo padre e a uma certa freira? 
Logo depois, senti no meu peito as mãos trêmulas da Gê que me agarrou por cima do assento. Segurei as mão delas e as beijei.
Daí ela me abraçou mais forte.

A ingênua completa

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